Quando o atraso deixa de ser exceção: o novo comportamento de pagamento das empresas

O avanço da inadimplência empresarial tem sido amplamente discutido como um sinal de deterioração financeira. No entanto, os dados mais recentes indicam uma mudança mais profunda: o atraso nos pagamentos deixa de ser um evento pontual e passa a fazer parte da dinâmica operacional das empresas.

Levantamento da Coface mostra que 77% das empresas na América Latina relataram atrasos em pagamentos em 2025, um salto relevante em relação aos 51% observados no ano anterior. O dado evidencia que o risco deixou de estar concentrado em casos isolados e passou a se manifestar de forma disseminada no ambiente corporativo.

Ao mesmo tempo, a duração média desses atrasos caiu de 52 para 42 dias. Esse movimento indica que, embora mais frequentes, os atrasos tendem a ser resolvidos em prazos menores, sugerindo um esforço maior de regularização por parte das empresas.

Outro elemento relevante é o alongamento dos prazos de pagamento, que passaram de 53 para 59 dias . Na prática, empresas ampliam o crédito concedido como forma de sustentar suas operações, ao mesmo tempo em que absorvem um ciclo financeiro mais longo e mais exposto a variações.

Esse conjunto de fatores consolida um novo padrão no comportamento de pagamentos:

  • maior incidência de atrasos
  • prazos de crédito mais extensos
  • regularizações em períodos mais curtos

O resultado é um ambiente em que o atraso deixa de ser um sinal definitivo de ruptura e passa a refletir ajustes recorrentes de caixa dentro de um cenário de crédito mais restritivo.

Nesse contexto, a análise de risco baseada apenas no vencimento perde efetividade. Torna-se necessário observar o comportamento ao longo do tempo, considerando a frequência, a evolução e a capacidade de regularização dos compromissos financeiros. À medida que esse padrão se consolida, a gestão de crédito passa a exigir maior profundidade analítica e acompanhamento contínuo. Mais do que identificar atrasos, torna-se essencial compreender sua natureza e antecipar seus desdobramentos dentro do ciclo financeiro das empresas, com apoio de relatórios estruturados e monitoramento consistente de métricas que permitam acompanhar a evolução dos indicadores e sustentar decisões mais ágeis e alinhadas às transformações do mercado.

Fonte: Longer payment terms and rising delays in Latin America | Coface

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